segunda-feira, 21 de junho de 2010

Jardineiro do Amor



Poesia de Mario Barreto França

Madrugada de luz, de paz e de vitória,
Jesus ressuscitara em meio a maior glória,
Por terra inerme jaz toda guarda romana
A potência do império, objeta, vil, profana.
A intriga farisaica e o ódio do judaísmo,
Varridos como pó no ardor do cataclismo.
A Cruz negra de fel para sempre vencida
Ao invés da guerra o amor,
Ao invés da morte, a vida.

Maria Madalena o sepulcro bem cedo foi visitar
Levava a alma cheia de medo,
Temia a guarda.
Era ainda escura, a estrela radiante da manhã,
Parecia que ao vê-la, abria-se em leque
Espadanando uma luz imensa,
Como que para o caminho seu iluminar
E Jesus ressurreto ao mundo anunciar.

Umas flores ao braço e balsamo olorante
Para a tumba de quem, agora tão distante,
Já não pode ouvir gemer o desgraçado,
Nem o pobre sem pão, nem o degenerado,
Nem o cego sem luz, nem da viúva tristonha
ferida pela dor da saudade medonha
Os queixumes da morte.
Ele que era tão santo
Que da mãe triste e aflita estancou tanto pranto.
Ele da morte está no cárcere maldito,
Envolto no mistério abstruso do infinito.

Para mim, que mulher de outrora era do mundo,
Seu amor foi supremo e seu amor profundo,
Dizia Maria madalena enquanto caminhava
Para o jardim florido onde o sepulcro estava
A dúvida pairava no seu cérebro ardente e no peito
O coração arfava tristemente.

Chegou. Eis o Jardim do rico Arimatéia
Um discípulo oculto, um nobre da Judéia.
Aproximou-se. Ao longe a dúbia luz boreal
Refletia-se no céu, silêncio matinal.
E sobre a enorme pedra que a tumba
Guardava, mais belo que o clarão da aurora que raiava,
Um ser angelical olha a tumba vazia,
Maria Madalena ao vê-lo se extasia.
Oh se ela o visse, tinha o tom divino a cor do jaspe reluzente
Ao sol entrando no ocaso.
Da luz a palidez do lago argênteo e raso.
Esboçando um sorriso, erguendo a fonte
Brada o ser angelical num toque da alvorada:
‘Por que choras mulher?’
e ela o pranto oprimindo:
‘Levaram o meu Senhor e eu o estou procurando’
e soluçando e saindo
foi gemer tristemente a um canto do jardim
dando toda expansão a sua dor sem fim.
Nisso encontra um varão bem perto do canteiro
A fitá-la de pé. Por certo um jardineiro:
‘Porque choras mulher’
‘Levaram o meu Senhor... E eu o estou procurando
Dize-me onde o puseste e eu o levarei comigo,
Pois é meu Rei, meu Deus, meu Senhor e meu amigo.’
E ele olhando a sua alma em agonia
Descobre-se afinal bradando alto: ‘Maria!’
E ela responde: ‘Mestre’ e cheia de ventura
Ajoelha-se e o adora.
E sua alma esclarecida e pura
tornou-se num jardim de gozo e de dulçor.
Onde os humos era a fé
A seiva era o amor, as flores o perdão,
E o trescalar ativo a epopéia sem par do Cristo redivivo.

4 comentários:

nadijane disse...

Linda poesia.

Margarete Solange Moraes disse...

Deus ungiu esse nosso irmão para escrever belas e inspiradas poesias. Adoro recitar as poesias de Mário Barreto França. “Adoro” no sentido do dicionário que diz que adorar é “gostar muitíssimo de” (Só para esclarecer melhor, é que algumas pessoas só reconhecem o adorar no sentindo de “venerar, reverenciar”).

nadijane disse...

Margarete,vc agora esclareceu por mim o significado de "adorar",sempre fiu criticada por usar muito esta palavra,hoje me policio muito para ñ dizer,porém agora vou dizer:__Adorei a poesia,adorei seu comentário.

Margarete Solange Moraes disse...

Entendo minha querida, sei como é isso. A gente diz: “adoro” isso ou aquilo, então de imediato alguém interfere dizendo: “adora, não, gosta! Porque adorar, você adora somente a Deus”. As pessoas repetem aquilo que ouvem alguém dizer. Porém, o dicionário traz vários significados para a palavra adorar e entre eles está o “Gostar muitíssimo de” ou “gostar demais de”. E só conferir no Aurélio ou no Ximenes. Hoje em dia por causa dessas questões em torno dessa palavra, considerada por alguns como sinônimo unicamente de cultuar ou venerar, algumas pessoas têm substituído o adorar por amar. Eu prefiro usar a palavra “A.D.O.R.O”, acho mais empolgante.